Quioto foi fundada no século I, sendo substituída por Tokyo, como capital do império, em 1868. Com cerca de 1.5 milhões de habitantes, é muito fácil se locomover por lá e entender o espaço urbano. É linda e misteriosa. Muito preservada porque escapou dos bombardeios da Segunda Guerra Mundial. Ficamos 9 dias por lá e faltou tempo, para tanta coisa que há pelos arredores.
Deixamos Shibuya, às 8 da manhã de um domingo, passando pelo seu cruzamento quase sem pessoas na rua. Um visão rara. Em compensação, a Estação Central de Tokyo fervia.
Um vai e vem ininterrupto de gente que circula entre as lojas e plataformas. Tipos diferentes. Lojas e comidas, idem. Vou clicando o que vejo, lamentando não ser fotógrafa profissional. Mas vai assim mesmo. São tantas comidinhas. Gelatina com doce de feijão, de gosto muito sutil. Doces arrematados com folha de ouro. As adoradas panquecas com a descoberta do recheio de matcha e chocolate. Os yakitori, churrasquinhos de tudo, até de pele de frango. 😊 E bolo de banana, a novidade da estação 😊 É difícil chegar até a plataforma de embarque, parando para ver e comer de tudo um pouco.
Para mim, as pessoas é que são mesmo a grande atração. São exóticas, vestem-se do jeito que lhes dá na telha. Minha vontade é ficar parada, apontando o celular para as figuras que vejo passar. Clicando tudo que me chama atenção repetidamente: os sapatos extravagantes, os cabelos, a maquiagem. Arrisco uns cliques, temerosa de que alguém venha reclamar da invasão. Vendo esta senhora, com roupa plissada, entende-se de onde veio a inspiração de Issey Miyake para fazer aqueles vestidos que mais parecem origami. Sem contar com o trem bala que encanta, não apenas pela qualidade de transporte ainda inalcançável para nós brasileiros mas pelo seu desenho que me faz pensar que um tubarão vai me transportar.
E, no meio do caminho, tem um vulcão. O belo Monte Fuji. Nesta hora seria bom que o trem que nos leva fosse menos “bala” e a gente pudesse ver o monte por mais tempo. Não é sempre que o dia está limpo e se pode vê-lo. Se for de trem bala para Kyoto, lembrar de sentar do lado direito.

A chegada em Kyoto traz uma surpresa: a estação. Não só é futurista mas também gigantesca. Tentei fotografar mas não há ângulo que permita meu celular fazer um registro fiel. Foi o jeito pedir emprestado ao Google, uma do interior, e me virar com as que eu fiz. Passamos pela estação, diariamente, durante nossa estadia em Kyoto, e todo dia era uma surpresa, uma parte nova que se via, um mundo de espaços. Só vendo para entender.

As estações de trem em Tokyo e Kyoto são um verdadeiro centro de lazer, sempre com muito movimento, agradáveis e limpas.
A icônica Torre de Kyoto, com um mundo de lojas e um hotel, em sua base.
Nosso hotel ficava do outro lado da estação e, quando era preciso cruzá-la ( fazíamos isto pelo menos uma vez por dia), sempre terminava em perrengue. Um labirinto de alas com lojas e área de alimentaçao onde era muito fácil perder o senso de orientação.
Deixamos as malas e fomos aproveitar o fim de tarde e depois jantar num lugar com fama de melhor ramen do país. Para turista, onde se chega há sempre o melhor e maior de tudo 😊. Mas este lugar, tinha uma fila na porta, 1 hora antes do horário de abertura. Funcionam só no jantar. E a fama se justifica. O ramen era mesmo especial.
No dia seguinte, demos início a uma caminhada em direção ao lado mais antigo da cidade. Como sempre, no meio do caminho havia um templo: o complexo Tokiwacho.
Depois, fomos em direção a Gion, o distrito das Gueixas. Caminhamos antes pelas ruas em torno de um teatro onde queríamos ver uma apresentação delas. Hoje, há poucas queixas em Quioto, comparado ao que foi no passado. Nesta época do ano, muitas mulheres saem de kimono pelas ruas e é preciso ficar atento para não confundí-las com uma gueixa de verdade. O traço mais característico das verdadeiras gueixas é a maquiagem pintando a parte traseira do pescoço com uma marca em forma de “V” ou “W”. Elas não costumam sair durante o dia e, muito menos, às segunda feiras. Achamos o teatro, o Miyagawa-cho Kaburenjō Theater. Compramos os ingressos para uma apresentação de dança, em comemoração ao 150o. aniversário da Restauração Meiji, e mais uma pequena cerimônia do chá. Mas o maior show foi mesmo as pessoas, as casas e as ruas. A apresentação das gueixas requeria mais tempo de exposição à cultura, ainda pouco conhecida por típicos ocidentais como nós. Devo confessar que achei a música monótona demais e a dramatização fora do meu alcance. Tudo mais era interessante: o interior do teatro, o cenário, a iluminação. Nome do espetáculo: “Cisnes voando no céu” 🙂. As fotos eram meio que não permitidas, fiz o que pude. Na frente do teatro há casas onde funcionam uma espécie de restaurantes para as maikos, as aprendizes de gueixa. As fotos 4 e 5 são casas de maikos. Fizemos até uma amizade brevíssima com um casal local, vestido a caráter. Eles contaram que nesta época do ano, é comum que as pessoas andem com estas roupas típicas. Inclusive, os turistas alugam kimonos para passear. 😉
De lá fomos ao Nishiki Market, um mercado coberto, com alas muito estreitas e mais de cem bancas que vendem tudo: frutos do mar e peixes frescos, panelas, facas, temperos. É conhecido com a Cozinha de Kyoto. Mesmo tendo visitado o Tsukiji em Toquio, ele ainda consegue surpreender.
Templo Ginkaku- ji, conhecido como “Pavilhão Prateado”, está entre as montanhas da cidade de Quioto, chega-se lá com ônibus. Foi feito, inicialmente, para servir de refúgio durante a guerra, e a intenção era cobrir o templo com prata, assim como o templo-irmão Kinkaju-ji, que foi coberto com ouro, mas não chegou a se concretizar.
Os jardins dos arredores do templo são lindos, com passarelas de madeiras (detalhe para o capricho no bueiro feito de bambu), um lago, e muitas árvores. É bom chegar cedo para não topar com a multidão de colegas turistas. Aliás, chegar cedo onde quer que se vá, é sempre o melhor conselho.
Kiyomizu-dera, templo budista parte dos monumentos históricos de Quioto e patrimônio mundial pela Unesco. Um belo passeio para se chegar até lá. Tantas fotos que não cabem aqui 😔.
Fushimi Inari Taisha, é conhecido pelo grande corredor de toris vermelhos, montanha acima. Impossível conhecer em um dia os muitos templos menores espalhados por 4 km de parque. O homenageado é Inari, deus do arroz e patrono dos negócios.
Vagar pelas ruas de Quioto é um programa que não cansa os olhos. Uma cidade de 1.5 milhões de habitantes, plana, sem os arranha-céus de Toquio e com o rio Kamo. Ver uma furtiva gueixa e lembrar de não incomodá-la, como pede o cartaz.
Pontocho, perto do centro, é um dos poucos lugares onde é possível encontrar um pouco da atmosfera histórica que faz a fama da cidade. São cerca de 500 metros que correm paralelos ao rio Kamogawa, entre as proximidades da avenida Sanjo até a Shijo-dori, perto de Gion, repletos de restaurantes, bares e casas de chá onde caras gueixas animam festas fechadas. Algumas dessas casas abrem durante o dia, mas a melhor hora para conhecer Pontocho é à noite, quando a movimentação de pessoas cresce e as lanternas dos estabelecimentos oferecem um ar nostálgico.
E haja templo! Tenryu-ji, construído em 1339, fica no distrito de Arashyiama ( o mesmo onde fomos bosque de bambu) e também é patrimônio histórico.
E mais templo! Seiryō-ji é um templo budista, também da lista dos Tesouros Nacionais do Japão.
A caminhada nos levou, ladeira acima, para um bairro bem pitoresco. Bateu a fome e entramos meio desconfiados, no restaurante de entrada escura e sombria, da foto 4. O local era um típico restaurante local, a comida deliciosa, tudo limpo e fomos servidos por uma simpática moça que se ajoelhava a cada prato que nos servia.
Por aí, comprei um kimono para o meu neto que me espera voltar do Japão para nascer. Este kimono para usar no verão se chama Yukata. Quase não achei por que perguntava se tinham Yutaka. A troca de sílabas pode ser fatal. 😄 Muito difícil não trocar, decorar não é fácil. Este país desafiou e venceu minha memória, de que me orgulho tanto 😉.
Voltamos vendo as curiosidades japonesas. Como será que se estaciona um carro assim? Por que gostam tanto de bares onde vão acariciar cães e gatos? Como conseguem ser tão caprichosos (vide o acabamento do portão de bambu)? Como as crianças são tão bem educadas, à mesa? Como lembram de tantos detalhes para facilitar o dia a dia (vide a forma como se pode guardar os pertences)? Um povo impressionante criativo e educado.
O caminho do Filósofo. No período Meiji, neste caminho de cerca de 2 km, o escritor Ikutaro Nishida, professor da Universidade de Quioto, costumava caminhar ao longo do canal e meditar. Na década de 70, pessoas que residiam na região começaram um movimento de preservação e, hoje, é destino turístico concorrido. A rota do filósofo tem muitas cerejeiras ao longo do canal, uma vista para a floresta de Higasiyama e muitos templos. O costume de meditar no local, é adotado pelos moradores e turistas eventuais. Chega-se lá enfrentando uma pequena subida mas há muitas lojas e bares, para reforçar a energia. Gostei muito.
A Floresta de Bambu de Arashiyama é uma das atrações mais emblemáticas e fotografadas de Kyoto. É, por isso mesmo, muito visitada. Se quer um conselho, comece cedo. Bem cedo. Só assim terá oportunidade de ver a Floresta de Bambu quase deserta.
Nós tentamos mas uma noiva mais apressada chegou junto com a gente e fotografar o famoso caminho entre os bambus quase foi impossível. A noiva não estragou a paisagem nem o ambiente , lindo com uma luz do sol filtrada pelos bambus. É um lugar único em Kyoto!
Nara foi a capital do Japão, século 8. É uma cidade cheia de atrações e muito conhecida pelos milhares de cervos que vivem num dos seus parques. Eles são protegidos por serem considerados mensageiros dos deuses, segundo o xintoísmo. Este pagode da foto 1, foi construído por volta do ano 740 e depois restaurado, lá por 1450. Também está na relação dos monumentos patrimônio da humanidade.
Os cervos são amigáveis mas é bom não descumprir o posto no aviso. Quando se aborrecem, dão coice e arrancam o que está na mão dos visitantes. Um deles comeu nosso mapa da cidade.
Mais atração. Entre pela porta Nandai-mon, imensa nos seus 20 m de madeira, para ver as esculturas do Grande Buda. Aqui dizem ser a maior imagem do Buda, no mundo. Fiquei pensando que já tinha visto o maior Buda do mundo, na Tailândia. Acho que título garantido de maior do mundo mesmo só quem tem é o cajueiro de Natal-RN 😊. Num dos lados do templo, pessoas descem se arrastando por uma coluna de madeira pensada ser o orifício nasal do Buda. Os que chegam lá no lado final, serão pessoas iluminadas. Só de olhar dá claustrofobia.
Finalizamos nosso dia em Nara indo ao castelo do parque.
Outro bate-e-volta desde Quioto: parque Otemae e o castelo Himeji. Um complexo de madeira, com exterior de cor branca brilhante, impressionantemente bonito, e o mais visitado do Japão. O interior é um museu fantástico.
Deixamos Quioto com saudade de tudo. Agora, rumo à rota Nakasendo. Pegamos um trem bala para Nagoya, de lá um trem simples para Nakatsugawa, depois um ônibus para Magome. Tudo sem dificuldade. Guardamos a lembrança dos funcionários da estação, do trem bala, das organizadas filas nos banheiros e registramos o único lixo visto em qualquer delas: um grampo.



















































































































































