10 – A trilha entre Magome e Tsumago

Li e vi fotos de Magome e Tsumago quando estava montando o roteiro da viagem mas não tinha ideia do quanto iria ser positivamente surpreendida.

Elas não chegam a ser nem pequenas cidades, são vilarejos, chamados de juku e eram pontos de paragem da rota Nakasendo, uma das 5 rotas comerciais que havia no período Edo da história do Japão e que ligava Tokyo a Kyōto, passando ao longo do Vale Kiso.

Edo ( também o antigo nome de Tokyo ) é o nome dado ao período entre 1603 e 1868, quando o Shogunato era o modo de governo. Foi caracterizado pelo isolacionismo e ordem social estrita. Teve fim com a chamada Restauração Meiji que se caracterizou pela abertura do país.

A parte entre Magome e Tsumago, dois juku famosos, é um trecho em ótimo estado de preservação. São 8 km que podem ser percorridos em 3 horas, de puro encantamento com a natureza, passando por casas e sítios de atuais residentes. Num trajeto cheio de bambus, cachoeiras, pontes. Cenário lindo.

Os vilarejos são muito bonitos e típicos. O contraste destes lugares com Tokyo e Kyōto é impactante.

Magome é uma graça. Chegamos lá vindo de Kyōto, de trem, passando por Nagoya e Nakatsugawa e desta última, com ônibus. A estrada é linda e a surpresa foi que lá também tem os túmulos na beira da estrada, com as pedrinhas vestidas.

Chega-se de forma fácil até lá, um lugarzinho que se desenvolve ladeira acima com lojinhas e lugares para se hospedar – ryokans e minshukus. Os minshuku são os equivalentes às nossas pousadas, normalmente tocados por famílias mas com a característica de que não há serviço de “quarto”. Os hóspedes armam seus próprios futons e podem fazer uso de áreas compartilhadas, como banheiros e cozinha. Os ryokans são mais sofisticados.

A subida pode ser difícil para quem leva mala pesada. Aliás, as malas são o grande dilema de uma viagem ao Japão: devem ser pequenas para caberem nos quartos e trens mas as tantas coisas lindas que se vê e quer comprar, pedem mais espaço.

Chegamos a Magome numa tarde de sol. Subi com minha mala que pesou só 10 kg quando saí do Rio mas que “engordou” um pouco em Kyōto 😊 Nada que mate mas é sempre bom ter em conta não ir acumulando peso na viagem.

Fomos direto ao minshunku em que nos hospedamos por 2 noites. Ficamos no Magomechaya Minshuku. Eu nunca tinha estado num lugar desses antes e foi divertido ver o interior, o quarto com tatame e quase sem móveis, as áreas compartilhadas ( cozinha, banheiros, etc)). Tudo muito limpo e com atendimento super gentil.

O quarto com pouquíssimos móveis: uma mesinha, um armário onde ficam guardados os futons e edredons que chamaram atenção com o jeito prático da capa e uma mini penteadeira. Adorei o travesseiro de trigo sarraceno. E o “mimo”do kimono de verão – o yukata – para brincar um pouco de ser japonês 😊

Ha uma “sala” de estar para os hóspedes fazerem suas refeições. É proibido comer no quarto.

Aliás, este minshuku tinha jeitão de colégio interno. Antes do café da manhã e jantar, uma música era ouvida, um sinal sonoro lembrando os hóspedes para serem pontuais. Caso alguém perca o horário, a refeição nao é mais servida nem a pau 😊 Uma banheira de água bem quentinha e piso com esfoliante natural, para os pés 😊 E os tais banquinhos que eles usam para se banhar sentados. Eles levam a vida agachados 😊

Depois de acomodados, fomos passear por Magome. Vimos um festival de flores, de cores tão vivas que pareciam de mentira. Venho do nordeste brasileiro, onde predomina o verde na vegetação e não há muitas flores. Elas sempre me deixam admirada.

As pessoas, adultos e crianças, também me encantam. Queria poder fotografar tudo que acho diferente. Adoro ver as pessoas, embora aqui nem sempre as máscaras permitem. 😊

Um “magomense” elegantérrimo 😊 e sua amiga.

Nota dez para o jantar. Peixe e tempura, ótimos. E a exótica carne de cavalo ( pratinho abaixo do peixe ). E para o café da manhã: sopa, bolinho de batata, salada e repolho e cenoura. Ele ensinam como montar o sushi, usando só o hashi. Não é trivial, exige praticar.

E, finalmente, a trilha para Tsumago. Pelo caminho, um sino para espantar os ursos, várias “esculturas” de pedras feitas pelos passantes bem de acordo com o respeito que o povo daqui tem pelas pedras, um pequeno templo e a exuberância da folhagem.

Muitas surpresas pelo caminho: bosques de bambu, riacho de águas azuis e uma loja de artigos para os cavaleiros.

E, após 3 horas de caminhada ( claro que parando para ver a paisagem e as novidades), sem encontrar ursos pelo caminho, chegamos à pequena Tsumago, no vale do rio Kiso, vilarejo intocado que dá um pouco da ideia do que foi o passado feudal do Japão.

Descansamos um pouco, junto com algumas pessoas com quem fomos interagindo pelo caminho e depois passear na rua principal da Tsumago.

Saí de belisquete, experimentando guloseimas pelo caminho. Um bolo de arroz doce, cozido em folha de camélia, como se fosse uma pamonha, feito e vendido pela simpática senhora nascida e criada na vila. E um doce no palito que não consegui descobrir de que era. Mas era bom e tinha gosto de cuscuz de tapioca.

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Encerramos o dia tomando um café num lugar muito interessante, onde a dona entretia os clientes tocando um instrumento esquisitíssimo, enorme e com várias cordas. Voltamos de ônibus para Magome, felizes por ter incluído Magome e Tsumago, no roteiro.

Published by Marta Pessoa

Estudiosa da longevidade, fundadora da Longevos. As viagens são meu laboratório.

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